Cantamurmurar. Em "Freak Scene", como noutras canções, é mais ou menos isso que J. Mascis faz. Quase sempre à beira de um amuo. Mesmo quando se entusiasma, não se lhe vislumbra qualquer tipo de pressa ou urgência. As palavras vão-lhe caindo da boca e juraríamos, até, que no fim de cada refrão vira a cara para o lado. Como se não tivesse mais nada para fazer.De facto, em meados dos anos 80, nos subúrbios de Boston, a vida não seria muito mais que um passatempo aborrecido para Jay Mascis, Lou Barlow e Murph (Emmett Murphy), três miúdos razoavelmente abastados da classe média americana. Depois das ilusões dos anos 60, as duas décadas seguintes tinham sido uma bonança áspera, por vezes dolorosa e progressivamente limpa de fantasias ou horizontes “revolucionários”. Sobrava o desencanto e uma paz social que a todo instante se procurava confirmar.
Sem a experiência dos old sixties, crescidos e criados nesta paisagem pacificada, alguns dos mais importantes nomes do rock undergound americano enveredaram ou por uma espécie de sonhar acordado, mais ou menos idealista (Minutemen, Sonic Youth) ou por viagens aos lugares mais sombrios do quotidiano (Butthole Surfers e Big Black). Nascidos em Amherst, Massachusetts, em 1983, os Dinosaur Jr existiram algures entre as duas “abordagens”.
Foram uma banda de "daydreamers" pouco motivados para sonhar. Faziam, liricamente falando, a vida nos desencontros do dia-a-dia. Sempre à beira da desaceleração final e com os olhos a meia haste. Não por acaso, as letras são rabiscos sobre os silêncios e os mal-entendidos das relações sentimentais. Nada de novo, portanto, a não ser uma certa malaise adolescente onde, para além das habituais angústias, cabem também alguma irrisão, indiferença e, hummm… sono.Na verdade e passados mais de 20 anos, Jay, Lou e Murph continuam a ser figuras imperscrutáveis, escondidas sob as melodias e ondas de feedback. Músicos “sem alma”, como um jornalista britânico os apelidou, ou figurantes de filmes possíveis de Gus Van Sant, Richard Linklater ou Hal Hartley. Não deixa de ser surpreendente, por isso, o poder da música dos Dinosaur Jr: apesar da sua candura desinteressada é quase sempre violenta e galvanizante – o que explica talvez o facto de serem uma das bandas mais queridas dos skaters.

Nos finais dos anos 80, quando se destacaram no último grande assalto do rock americano às Ilhas Britânicas, conseguiram, sem grandes dificuldades, atrair as atenções da imprensa local. Melody Maker, NME e Sounds renderam-se, com pouca resistência, ao modo como a melodia passava incólume sob a chuva de distorção, aos riffs impossíveis (como se tocados por um gigante numa guitarra de bebés) e à recuperação imaginativa do solo. Assim, através de uma colagem, sem hierarquias, entre riff, solo, distorção e melodia, o grupo de Boston afirmava a sua singularidade. A influência, essa seria notada, poucos anos depois, no movimento shoegaze (via My Bloody Valentine), e até hoje, em exemplos mais isolados (Lightning Bolt).

Apesar do distanciamento que qualquer olhar retrospectivo carrega consigo, julgo que foi tudo isto que, algures entre 1988 e 89, encontrei em "Freak Scene" (do terceiro disco, Bug). Enfim, música violenta que não agride, música barulhenta que é suave, rock onde não se grita, mas onde se tartamudeiam melodias.
Recordo o videoclip da canção, e nele a presença de bonecos, máscaras, coisas para brincar. É difícil não imaginar uma linhagem representada hoje nos Animal Collective e nos Deerhoof. Já nessa altura o rock tinha deixado de ser música da rua, para passar a ser música do quarto. Ou para voltar à condição de actividade lúdica. Sem o grito do escândalo.
De qualquer forma, gostava de acreditar que esta canção pertenceu a uma geração. O vídeo que podem ver em baixo dá-me (com boa vontade, é certo), alguma razão.
De qualquer forma, gostava de acreditar que esta canção pertenceu a uma geração. O vídeo que podem ver em baixo dá-me (com boa vontade, é certo), alguma razão.
Nota: deixei de fora, propositadamente, referências aos Dinosaur Jr da época 1989-1997.

“Be My Baby” tardou a atravessar-se no meu caminho. Tê-la-ei ouvido algures, mas sem a atenção devida, até ao dia em que vi “Mean Streets”, de Martin Scorcese. Foi aqui onde finalmente a encontrei, não por acaso, sob a forma de uma sequência inicial: Charlie Cappa (Harvey Keitel) encosta a face à almofada, depois de acordar de um pesadelo e, logo a seguir, entra o genérico, com fotografias e um filme caseiro que apresentam as personagens. Durante alguns anos não consegui separar a canção do filme. Era como se pertencesse à superfície daquelas imagens, ou estivesse dentro daquela história. Martin Scorcese nunca escondeu o fascínio pela música pop-rock, mas este será, porventura, a obra onde esse sentimento melhor se descobre.
Para lá da sua inocência, da sua alegria tocante, esta é, porém, uma canção “imperfeita”. Está, inevitavelmente, demasiado próxima do seu autor, um déspota dentro e fora do estudo, tão reconhecido pelo talento, como pela necessidade doentia de controlar os outros. Phil Spector é se quiserem um dos fantasmas da canção. É quem espreita por detrás de Ronnie, não só como “produtor”, mas também como seu (ex)marido, e é quem perverte, do mesmo modo que completa, a inocência de “Be My Baby.” Durante cinco anos, a cantora foi mantida prisioneira virtual do criador do Wall of Sound e à separação forçado do mundo exterior seguiu-se a fuga, o divórcio e o fim artístico de Vernica Yvette Bennett.





